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Com o mar dentro de casa
O arquiteto conseguiu levar a vegetação nativa e a vista maravilhosa do mar de Ilhabela para dentro da residência de 400 m². O paisagismo exuberante também é um convidado de honra

Texto: renata Cattaruzzi
Fotos: Patrícia Cardoso



Do lado de fora, o modesto portão de madeira esconde a casa cinematográfica. Do outro lado, apesar da vista para o mar, quem está velejando ou nos barcos pesqueiros não consegue vê-la, graças ao imponente paisagismo e a mata nativa que garantem a privacidade. O terreno de 2.500 m² tem um declive acentuado de 20 m e a topografia foi totalmente respeitada pelo arquiteto Oscar César Leite Junior. Assim, a casa teve de ser dividida internamente em quatro níveis sociais e, na área externa, um anexo para o casal e outro de hóspedes.

OS GRANDES VÃOS FECHADOS COM VIDRO
são responsáveis pela iluminação natural da sala de estar e mezanino e ainda trazem o mar para o interior do projeto. As aberturas medem 4,60 m (do piso ao último caixilho) e cada folha das portas de correr possui 1,15 cm de largura. As portas de madeira cumaru têm vidro temperado e são de correr para facilitar a passagem, já que é um ponto de grande circulação. O pé-direito de 6 m possui um mezanino, voltado para o estar, que serve como espaço de descanso.

Localizada em Ilhabela, litoral Norte de São Paulo, a morada recebe os proprietários a cada 15 dias. "Apesar de morarem longe, no Rio de Janeiro, eles têm uma vida esportiva ativa, gostam de velejar, mergulhar e praticar caiaque.

"Construir no litoral não é tarefa fácil. Normalmente desenho 40 plantas. Para esta casa foram 90!"

Oscar César leite junior

E o local oferece absolutamente tudo que a família precisa", justifica o responsável pelo projeto, que executou a obra em apenas dois anos.

PARA CONTEMPlAR A VISTA
para o mar de ilhabela e ainda tomar sol, foi construído um deque de madeira cumaru tratada com verniz marítimo naval - que protege a madeira contra intempéries. O espaço de 25 x 3 m faz ligação com a área social da casa. Um extenso banco de madeira faz as vezes de guarda-corpo e espaço para se sentar e observar a praia.

Espaço para receber
Dentre as exigências do jovem casal, que tem uma filha de seis anos, estava a integração do mar com a casa e um grande número de acomodações para os amigos. Todos os quartos têm vista privilegiada.

O anexo do casal é o mais próximo da natureza. A janela veneziana camarão (articulada com ferragem de inox para não obstruir a vista) abre o máximo possível do vão, ou seja, nenhuma folha impede a visão para a paisagem. Para dormir e acordar com o barulhinho do mar, nenhuma delas tem vedação acústica. Isolado da casa principal, o espaço conta ainda com um pequeno escritório e uma banheira de concreto revestida com pastilhas de vidro. "Colocamos uma janela que possui parte de vidro, para que eles possam desfrutar do pôr-do-sol enquanto relaxam, e parte com venezianas, para que tenham privacidade."

NO DEQUE, OS BANCOS
de madeira também são de cumaru, assim como o restante de toda a estrutura da casa. As grandes portas de correr de vidro dão acesso ao estar. As esquadrias de madeira contrastam com a parede de pedra Goiás filetada, que vieram de São Sebastião e foram cortadas na mesma medida.

Para que os hóspedes também sejam preservados e tenham conforto, o arquiteto projetou um segundo anexo que abriga três quartos: um com decoração infantil, outro para solteiros e o último para casal. Todas as suítes têm vista para o mar e possuem prateleiras de concreto, ao invés de armários, para que as malas não fiquem espalhadas pelo chão. O piso é o mesmo para todos os ambientes íntimos: uma mistura de cimento queimado e cimento branco com recortes assimétricos em tábuas de madeira cumaru.

A sala de jantar é integrada à churrasqueira e à cozinha, o que facilita o transporte dos alimentos. Destaque para as vigas estruturais de cumaru, que suportam assoalho do mezanino. Rasgos na alvenaria com fechamento de vidro permitem a entrada de luz natural e do paisagismo.

Abaixo do mezanino está a sala de estar, com grandes vidros para iluminar naturalmente a casa. "Eles pediram uma iluminação suave em todos os ambientes. Optei apenas pelos refletores no madeiramento interno e abajures, para trazer aconchego. Por isso, tive de abusar na quantidade e no tamanho dos vidros para clarear naturalmente o espaço." Claro que, além disso, eles permitem a contemplação do mar e do verde do entorno.

CHARMOSA, A CHURRASQUEIRA FOI
construída com massa grossa desempenada e estruturas de aço inox - o material é bonito, fácil de limpar e resistente à maresia. Para revesti-la, filetes de madeira cumaru seguem a mesma linguagem do restante do projeto. A bancada de madeira de 95 cm não obstrui a vista e permite ao churrasqueiro integração total com quem está tomando sol no deque. Para proteger o local, a pérgula tem cobertura de vidro laminado.

Toda a madeira da casa é cumaru, tratada com verniz marítimo naval para proteção contra o sol e a maresia. O revestimento de toda a área social é de tijolos de barro - já que o piso é de fácil limpeza e de uma rusticidade elegante.

Cozinha social
Por cursar gastronomia e adorar cozinhar, a proprietária ganhou uma cozinha integrada com os ambientes sociais. "O tampo da mesa de jantar corre sobre rodízios para dentro da cozinha, facilitando assim a troca de pratos, já que o vidro é elevadiço."

MUITOS VIDROS ESPALHADOS
e o jogo de telhados trouxeram mais claridade interna. Na imagem, o telhado de três águas foi construído apenas para dar mais charme à fachada, e está um nível abaixo da cobertura de toda a sala. A rusticidade se faz presente nas esquadrias de madeira, vigas aparentes e piso de tijolos de barro. Ao mesmo tempo, as grandes aberturas com vidro são características da arquitetura contemporânea.

Os armários são de madeira pintada de branco com portas venezianas para facilitar a ventilação e não deixar aquele cheiro de mofo conseqüente de regiões úmidas. A churrasqueira, ponto de destaque pela sua localização estratégica (perto da cozinha e do lazer), foi construída com massa grossa desempenada e estruturas de aço inox, que é bonito, fácil de limpar e também resistente à maresia. A bancada é de madeira cumaru assim como a pérgula - que ainda recebeu uma cobertura de vidro laminado.

Com acesso ao mezanino e à área externa, a escada é revestida com tijolos de barro - piso de fácil limpeza e de uma rusticidade elegante. A porta pivotante tem 2,40 m de base x 3,50 m de altura, também de madeira cumaru com ferragens de inox escovado.

Mais movimento às fachadas
O jogo de telhados ficou harmonioso. Segundo o arquiteto, a irregularidade do terreno pedia ambientes em níveis e a utilização de várias águas deu movimento ao projeto. "Sempre busco ousar nos jogos de telhados em todos os meus trabalhos, e neste não seria diferente. As vigas estruturais de madeira cumaru ficam aparentes e o pé-direito da sala atinge 6 m." As telhas de barro são de demolição, vindas de São Sebastião, cidade localizada a 2 km da ilha.

As tesouras do telhado
ficam aparentes no mezanino, assim como na sala de estar, reforçando a rusticidade do projeto. Para contrastar com a cumaru, a opção foi por pintar todas as paredes na cor branca. Descendo o lance de escadas está localizado o lavabo.

Para fazer a fundação, Oscar diz não ter tido nenhum problema, já que o solo é bastante resistente. "Utilizei uma fundação direta (sem estacas), com brocas, blocos e baldrame de concreto armado."

O pergolado de entrada
segue o mesmo padrão da churrasqueira: estrutura de madeira cumaru com cobertura de vidro laminado para proteger o caminho da garagem até o interior da casa em dias de chuva. Os degraus da escada são entremeados por vegetação. À direita, o anexo dos hóspedes.

Projetada posteriormente pelo próprio dono da casa, a piscina tem desenho arredondado (forma de amendoim) e fundo infinito, já que é bem de frente para o mar. Este tipo de piscina só pode ser construído quando há uma paisagem, para que dê a sensação de imensidão e continuação da água. Segundo Oscar, um projeto na praia é sempre desafiador: "Normalmente desenho 40 plantas. Para esta casa foram 90!"

Para respeitar a topografia
do terreno em declive, a casa principal foi construída em quatro níveis. As três edificações (principal, de hóspedes e anexo do casal) são interligadas. Característica da maioria dos projetos de Oscar, o jogo de telhado com muitas águas traz charme à fachada.

 

Proporcionando privacidade e conforto
também aos hóspedes, o anexo abriga três quartos que acomodam seis pessoas. Todas as suítes têm vista para o mar e os pisos são uma mistura de cimento queimado e branco com recortes assimétricos em tábuas de madeira cumaru. A escada de acesso aos dormitórios é de madeira e a parede, de pedra Goiás filetada.

 

O dormitório de hóspedes
ganhou portas de correr de canto, que proporcionam uma visão mais ampla do jardim e do mar. Quando os convidados quiserem privacidade, é possível fechá-las completamente com a veneziana.

 

O declive de 20 m
deixou de ser um problema e foi aproveitado. A solução foi econômica e, ao mesmo tempo, garantiu um projeto diferenciado, dividido em três anexos que possuem vista para o mar. Algumas árvores nativas tiveram de ser transplantadas, deixando o paisagismo em harmonia com a arquitetura.

 

isolado da casa está o quarto do casal
Com closet, escritório e um banheiro, traz a privacidade que os proprietários queriam quando a casa está cheia. A janela tipo camarão é articulada, para não obstruir a vista, e abre o máximo possível do vão, ou seja, nenhuma folha atrapalha a visão de quem está deitado na cama. As portas de venezianas e as de vidro abrem para lados opostos.

 

O banheiro do quarto do casal
ganhou uma banheira de concreto revestida com pastilhas vidro (Vidrotil). Na parede a janela de vidro recebeu outro caixilho abaixo com venezianas que garantem privacidade e segurança para quem toma banho.

 

A piscina
foi projetada na parte mais próxima ao mar. Para a saída de barco, há um píer ligado à edificação. O caminho de pedra granito segue até a área da piscina. O desenho é do arquiteto e a execução da paisagista Catherine Mendiondo.

 

Em formato de amendoim, a laje segue o mesmo desenho da piscina e foi projetada pelo proprietário. Com cobertura gramada, ela protege do sol o espaço de descanso abaixo, voltado para a piscina.

 

O fundo infinito da piscina
a integra com o mar. Este modelo só pode ser construído quando há uma bela paisagem à frente, para dar a sensação de imensidão e continuação da água. O revestimento da borda é de cimento em pó com mármore e, internamente, pastilhas de vidro.