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Elemento em destaque
Pedras filetadas
O revestimento está presente em diferentes projetos e agrega a rusticidade das rochas ao charme do recorte em filetes

Texto: Sandro Prezotto


Depois de ficarem alguns anos esquecidas, as pedras canjiquinhas voltam com força total em fachadas ou paredes internas, muitas vezes sendo empregadas em apenas alguns detalhes. Os filetes são instalados em camadas, umas sobre as outras, e podem ser aplicados de duas formas: deixando à mostra o lado bruto ou o lado semipolido. A fixação das peças é feita com argamassa específica direto na parede, utilizando-se juntas secas.

Por sua textura delicada e tons amarelados - geralmente os mais procurados porque combinam com quase tudo - o filete califórnia, ou canjiquinha cai muito bem em ambientes de estilos variados. Muitos projetos modernistas utilizam- se do elemento para dar um toque de rusticidade e quebrar a linha monocromática e sem volumes, características das construções contemporâneas.

"As pedras mais comuns utilizadas são goiás, ardósia, granito e mármore branco ou nobre. Cada uma trará uma cor e uma sensação diferente aos ambientes, variando do visual requintado ao rústico, do claro ao escuro", explica a arquiteta Fernanda Dabbur. Todas elas podem ser utilizadas tanto para áreas internas como externas.

"Esse revestimento foi muito usado entre os anos 50 e 70 e agora foi novamente resgatado. Seu uso propicia um ar de requinte a qualquer ambiente", fi- naliza a arquiteta Emilia Garcia.

A arquiteta Flávia Brasil teve de realizar uma verdadeira garimpagem para escolher uma a uma as pedras que seriam utilizadas para a canjiquinha de são tomé aplicadas na parede da lareira. "Elas precisavam apresentar tons variados, oscilando entre o claro e o escuro. Avaliamos diversas opções de revestimentos para essa sala de estar. Queríamos algo que realmente destacasse a parede e marcasse a lareira como um bloco único", conta. Os tons variados das pedras fazem o contraponto entre a madeira taco palito do piso, as paredes brancas e o forro de gesso acartonado. Flávia explica que os  letes foram bem cortados para que a parede ganhasse uma aparência uniforme. Para a arquiteta a espessura ideal pode variar de 2 a 4 cm de cada peça. Foto: Paulo Bau

 

Foto: Nicola Labate No living deste apartamento, a arquiteta Emilia Garcia deu mais destaque à parede onde está embutida a lareira, que era de alvenaria comum. Toda a área (de 15 m2) foi revestida de canjiquinha de mármore travertino romano (Marmoraria Amsterdam). Emilia explica que a canjiquinha não precisou ser rejuntada. "Simplesmente foi aplicada na parede, apoiando as pedras com a massa especial." Os  letes utilizados têm espessura de 2 cm, a mesma do mármore, e 50 cm de largura. No caso da canjiquinha de pedra, a espessura pode oscilar de acordo com o material utilizado.

 

No desenvolvimento do projeto de uma lareira na área deste home theater, a arquiteta Beatriz Dutra teve a idéia de utilizar a canjiquinha de mármore piguês polido (Amsterdam Mármores), mesmo material utilizado no piso do living. O resultado foi um projeto diferenciado e com muita so sticação. "O tamanho dos  letes é irregular, mas eles têm aproximadamente 4 cm de altura, 3 cm de profundidade e comprimentos variados", conta a pro ssional. Ela explica que no caso do mármore polido é possível a utilização de rejunte entre as peças. Para evidenciar e valorizar ainda mais o revestimento desta parede, Beatriz utilizou spots de luz direcionáveis com lâmpadas dicróicas. Foto: Tuca Reinés

 

Foto: Martin Szmick À procura de um revestimento diferenciado, mas natural, que se encaixasse no contexto desta residência, a arquiteta Cilene Monteiro Lupi surgiu com a idéia de utilizar a canjiquinha de pedra mineira na parede da lareira do living. O objetivo era criar um visual de textura bem destacado. "Como toda a decoração da casa é muito clean, a canjiquinha caiu muito bem, principalmente por ter mesclas de tons mais claros", explica. Os  letes têm espessura que variam de 3 a 4 cm e comprimento de 25 a 30 cm. O projeto de iluminação dá um charme extra ao ambiente, com pontos de luz focados especialmente no revestimento. "A canjiquinha é um revestimento de múltiplos usos."

 

O arquiteto Francisco Cálio optou pelos  - letes de pedra são tomé branca para dar o tom de modernidade e ao mesmo tempo retrô no hall de entrada dessa residência. "A canjiquinha, ou pedra  letada, dá um visual rústico e contrapõe com a delicadeza do mármore do piso, fazendo ainda uma combinação perfeita com a madeira da porta e do ambiente que segue", explica. A parede de 13,50 m foi revestida de pedras que variam tanto de espessura (de 1,50 a 2 cm) quanto de comprimento (de 30 a 40 cm). Cálio a rma que o rejunte não teve de ser utilizado, pois essa é uma canjiquinha rústica - ele deve ser apenas usado quando for  letada acabada. Foto: Divulgação

 

Foto: Divulgação Engana-se quem imagina que o revestimento de canjiquinha deve ser utilizado apenas para pequenos detalhes da obra. No caso desta casa de Alphaville, o revestimento está presente em todo o embasamento da casa (tanto externo como interno), que tem três níveis: o acesso principal (mostrado na foto), a garagem, depósito e acesso de serviço. Como o piso do ambiente e a escada receberam revestimento de madeira, os arquitetos do escritório FMC Arquitetura optaram pelos  letes de pedra mais claros. As pedras foram cortadas com espessuras que variam de 3 a 5 cm. "Por sua irregularidade, a canjiquinha é um revestimento que exige uma limpeza cuidadosa. Se for bem colocado, tem durabilidade inde nida", explica o arquiteto Conrado García Ferrés, um dos autores do projeto, em parceria com Santiago García e Juan Manuel García.

 

A arquiteta Fernanda Dabbur tirou partido da canjiquinha para valorizar a parede de pé-direito duplo da sala de estar deste duplex. O resultado foi a conquista de requinte, aconchego e beleza aos ambientes dos dois pavimentos. "Queríamos um espaço claro, que combinasse os materiais de forma harmoniosa. Mesclamos os tons de creme, branco e marrom para criar esta atmosfera", explica. Os  letes utilizados possuem de 2 a 3 cm de espessura de pedra são tomé. "O tipo de corte solicitado foi o manual, de talhadeira, que dá o efeito irregular desejado. Para interiores, eu pre ro as canjicas  ninhas, que  cam mais elegantes. Porém, uso sempre algumas  adas de pedras um pouco mais largas (com aproximadamente 4 cm) intercaladas para quebrar a uniformidade." Fernanda conta que também foram criadas, à meia altura, arandelas que jogam luz para cima, lavando a parede, recurso que aumenta o efeito de luz e sombra e valoriza ainda mais o material e o ambiente. Foto: Divulgação

 

Foto: Divulgação Um apartamento na praia deve ter sua decoração voltada para proporcionar ao morador um clima de tranqüilidade e paz. Tudo isso deve vir aliado a muita elegância e, no caso do projeto da arquiteta Fernanda Marques, com o predomínio da cor branca. A canjiquinha foi escolhida porque traz essa proposta: um simples toque de rusticidade e delicadeza junto à decoração. A combinação deste ambiente de estar está totalmente voltada para o conceito contemporâneo. A pedra madeira foi aplicada em  letes irregulares. A medida de 4,47 x 2,50 cm, maior do que a utilizada habitualmente, confere um aspecto mais rústico à parede.

 

Foto: Arquivo pessoal

O projeto desta sala de estar desenvolvida pela Costa, Forte e Salinas Arquitetos tem um partido arquitetônico de linhas modernas. Os acabamentos, porém, foram mantidos o mais rústico possível, para criar um contraponto

"Por se tratar de uma casa de campo, optamos pelos  letes de pedra para dar um ar de chalé de montanha", conta o arquiteto Caio Salinas.

Foi utilizada pedra mineira em tons de bege com  letes que variam de 15 a 30 cm de comprimento e de 1 a 3 cm de espessura. "As dimensões não interferem, mas dependendo do tipo de acabamento que você pretende, existem as opções de utilizar a pedra serrada ou a lascada, como a que escolhemos". Caio aconselha a utilização da canjiquinha para praticamente todas as situações e ambientes. "Só não recomendo em uma parede de cozinha, onde está localizada a bancada de trabalho. Em virtude dos vãos que existem entre os  letes, haveria um acúmulo muito grande de gordura e resíduos."

Foto: Azael Bild

Para o arquiteto Aquiles Nicolas Kilaris, a canjiquinha deve ser usada de acordo com a criatividade do pro ssional, como foi feito nesta parede de fundo de uma garagem, onde um jardim foi projetado como cenário. "Ela  ca bem em detalhes arquitetônicos, ornamentalmente desenhadas e até em grandes áreas, como paredes externas de garagens e churrasqueiras. Em nossos projetos, essa pedra é sempre usada por ser um material relativamente barato e que se integra perfeitamente com a natureza, que é o cenário principal das nossas concepções." Nessa fachada, o pro ssional optou pela pedra são tomé (Revest Pedras).

Segundo ele, é preciso sempre conferir a homogeneidade da cor do material e o tipo de serragem executada para que ela mantenha uma certa medida de alinhamento na hora da colocação. "Como todo revestimento decorativo, deve-se tomar alguns cuidados básicos, pois a colocação da canjiquinha deixa muitas fendas.

Na execução do assentamento, é preciso veri - car se a cor é homogênea e se o alinhamento entre as peças e o espaçamento está perfeito".

Foto: Arquivo pessoal da arquiteta

Na reforma desta casa, a arquiteta Janaína Campanella optou pela canjiquinha de pedra mineira para a fachada, pois havia uma grande parede a ser revestida e ela procurava um material que  casse bonito e leve ao mesmo tempo. "Utilizamos  letes de 3 cm, mas eles podem variar, tanto em relação à altura da pedra quanto à espessura. Existe também o  lete mesclado, que vem mais bruto e dá um aspecto mais rústico ao ambiente", explica. Janaína acrescenta que a lentidão na execução da instalação das pedras é um inconveniente a ser considerado. "Para que o trabalho  que bem feito, coloca-se de 1 m2 a 1,50 m2 por dia, o que acaba sendo muito tempo para grandes áreas."

Foto: Patrícia Cardoso

"Desde o início do projeto desta casa, eu quis dar uma importância para a entrada e marcar a torre da caixa d'água. Como o projeto não tem telhado aparente, usei esse recurso para proporcionar verticalidade à fachada. Revesti-la com algum elemento arquitetônico era fundamental", conta a arquiteta Andréia Carla Medice. A pedra  letada é a são tomé branca com medidas que variam de 30 a 45 cm de comprimento e de 3 a 5 cm de largura e espessura.

"Qualquer pedra pode ser cortada em  lete, como arenito (vermelha), goiás verde, branca ou amarela, e a própria são tomé", explica Andréia. A canjiquinha pode ser assentada em qualquer ambiente, interno ou externo. "O importante é que seja feito um tratamento super  cial das pedras depois de assentadas para preservar sua aparência", conclui.

 

 

Foto: Marcelo Scandaroli

O quartzito branco foi a pedra escolhida para a composição das paredes (de aproximadamente 35 m2) desse terraço. "O proprietário queria algo diferenciado, so sticado e de custo não muito elevado, mas o propósito principal era utilizar algo que estivesse em forte tendência atualmente", relata o arquiteto Eduardo Barcellos.

"A área externa, por ter dimensões reduzidas, pareceria mais agradável se fosse composta por tons claros nos revestimentos principais (piso e paredes) e pinceladas de madeira em outros pontos. A canjiquinha de quartzito serviu bem a esse propósito com um custo muito inferior, por exemplo, ao do limestone ou do mármore, que eram as preferências iniciais dos moradores". Os  letes não têm tamanhos iguais. "Avaliei que seria mais interessante utilizar  letes irregulares, variando de 10 a 30 cm, mas a espessura é única (3 cm). Pode-se usar espessuras maiores, de acordo com o efeito desejado. Porém, utilizar comprimentos maiores ou espessuras menores pode elevar o custo da mão de obra do corte das pedras, pois elas estarão sujeitas a quebrar antes da colocação no seu manuseio",  naliza Eduardo.

Pedra mineira (Cotrim Pedras) foi o material escolhido pela arquiteta Beatriz Dutra para dar um charme especial a esse banheiro de 7,50 m. A intenção era de misturar materiais e dar um toque rústico e clean ao ambiente. A pro ssional revestiu as colunas que intercalam os espelhos com canjiquinha. Duas arandelas, de material artesanal foram instaladas nas pedras. "Escolhi a pedra mineira por ela ter o mesmo tom dos outros materiais do banheiro, como a cerâmica do piso e o mármore travertino da bancada", lembra. Foto: Gui Morelli

 

Foto: Mônica Imbuzeiro A tecnologia contrasta com um material rústico. No living de um apartamento, projetado pelos arquitetos Eliane Fiúza e Henrique Medeiros, a canjiquinha de pedra madeira foi utilizada na parede do home theater. "Como usamos algumas peças modernas, quisemos dar um equilíbrio optando pela pedra  letada, com tamanhos variados, maiores que os convencionais, que  cam em torno de 20 cm de comprimento por 5 cm de largura", conta Henrique. A iluminação ajudou a destacar o revestimento. "Fizemos um rasgo no gesso junto à parede de pedra e colocamos luminárias embutidas para dar um banho de luz e realçar a parede de canjiquinha."

Canjiquinha de madeira
Outra tendência recente é a canjiquinha de madeira, ou seja, são desenvolvidos painéis com filetes de madeira, criando um efeito parecido com o das pedras. Neste caso, são usados imbuia, freijó, canela ou ainda MDF com opções variadas de pintura.

Neste projeto, as arquitetas Ana Claudia Marinho Rodrigues e Simone Bigoto resolveram utilizar um material original e criaram uma espécie de canjiquinha de madeira. A madeira utilizada no painel (Pau-pau) de aproximadamente 52 m foi a imbuia, intercalada em diferentes tonalidades para criar um efeito agradável.

"A madeira é um material nobre, que facilmente combina com outros. Por ser clean, como o restante da casa, esta mescla foi muito feliz", acrescenta Ana Claudia. Os  letes, de 15 x 3 cm, foram utilizados em profundidades diferentes, variando de 0,5 a 1,5 cm. As lâmpadas AR 70 embutidas, direcionadas para o painel, completam o ambiente, dando uma luz cênica e bonita, destacando a volumetria e o movimento criado com os  letes.